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Maturidade

Eu tinha a crença que todo idoso era sábio, como se os idiotas não envelhecessem. Acho que isso é culpa da minha avó Elisa e dos poucos idosos que convivi enquanto crescia, alguns eram notáveis. A exemplo minha vozinha, mulher simples, veia indígena, apesar de ser filha de lisboanos, mulher que pariu 12 crianças e criou 9, caçando, pescando, cozinhando, limpando, costurando, tapando buracos… viveu todas essas adversidades e momentos felizes a ponto de comunicar-se com o olhar, e que olhar! Ela respondia minhas inquietações somente com ele. Seus olhos sempre falavam mais que sua boca. Certa vez, perguntei como ela conseguiu conviver com meu avô por 50 anos, ela só olhou para mim e juro a você que seu olhar falou: eu não convivi com ele, eu vivi comigo.


Hoje eu entendo aquele olhar/declaração. Eu diria que também foi um aviso. Uma previsão! Em nossas conversas de poucas palavras, da parte dela, claro; ela dizia muito, mas eu aprendi foi observando sua vida, principalmente o que eu não queria para mim. Lembro que em um de meus insights ao descobrir o que eu não queria, ela me olhou com aqueles olhos azuis, boca sarcástica e o centro daquela cabeça repleta de cabelos metade branco e metade preto, mesmo no auge dos seus 70 anos, como quem diz: ah, agora ela entendeu.



Eu entendi.


Pois todas as minhas vivências e mortes me perfuraram com a ponta da adaga mais afiada, daquelas que a vida faz sob medida para todos nós. E todas às vezes em que o objeto brilhante e pontudo estava empalado profundamente enquanto dizia olá para minha alma, ele foi torcido e retorcido, até que eu sangrasse lágrimas e sorrisos.


Como se tudo fosse 8 e 80, vida e morte, preto e branco, ainda que existam áreas cinzas. Essa foi a vida implorando para apoiar Bardo do Avon, quando ele disse que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.


A maturidade não dói, ela perfura como a tal arma talhada sob medida, ela perdura pelo tempo maldito… e você sempre vai querer fazer melhor da próxima vez.


✍🏻: Lilli Dantas

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